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O tempo – Danuza Leão

Boa noite! Depois de escrever sobre o tempo, com um ponto de vista, trago desta vez um texto da Danuza Leão. Espero que gostem!

Qual de nós não foi mais feliz do que agora? E se não éramos, achávamos que iríamos ser um dia.

 

A coisa mais misteriosa que existe: o tempo.

O tempo acaba com tudo: com as árvores, com as montanhas, com as pedras, com a água -que se evapora-, com os sentimentos, com os bichos, com os homens.

O tempo acaba com o vigor físico, com o paladar, com o olfato, com o interesse pelas coisas; com a vontade de viajar, de comprar uma roupa nova, de reencontrar um velho amigo, até com a vontade de viver. É cruel, o tempo.

Quem se salva do passar do tempo? Os que não pensam, talvez, ou talvez os que só pensem no momento, aquele que estão vivendo; mas mesmo assim podem pensar que já viveram momentos parecidos e muito melhores que nunca mais vão se repetir, por culpa do tempo.

Qual de nós não foi mais feliz do que agora? E se não éramos, achávamos que iríamos ser um dia, quando tivéssemos mais dinheiro, quando encontrássemos o verdadeiro amor, quando tivéssemos filhos, quando eles crescessem, quando, quando, quando. E agora, você espera exatamente o quê, e a culpa é de quem? Apenas do tempo.

Dele, nada escapa: é o tempo que acaba com os grandes amores, e com os grandes entusiasmos que não resistem a ele, que passa e passa. Não são as coisas que passam: é ele.

Passar é modo de dizer: quando se está muito feliz, ele voa, e quando se está esperando muito por alguma coisa, é como se ele tivesse parado.

É como se estivesse sempre contra nós, e quando acontece de se ter uma vida razoavelmente feliz, um dia se vê que ela já passou, e com que rapidez.

Mas o tempo às vezes é amigo; quando se tem uma grande dor, não há dinheiro, viagens, distrações, trabalho ou aventuras que ajudem: só o tempo.

Não chega a ser um tratamento de choque, rápido, como se gostaria; é uma coisa vaga, lenta, que não dá nem para perceber que está acontecendo, mas um dia você acorda e se dá conta de que o sol está brilhando -coisa que passou meses sem perceber que acontecia diariamente-, se olha no espelho, tem uma súbita vontade de abrir a janela e respirar fundo.

Ainda não sabe, mas está salva. E um dia, muito depois, vai saber que foi o tempo, e só ele, que a salvou.

Nunca se pensa no poder do tempo, do quanto ele comanda nossa vida; também nunca se pensa no quanto ele é precioso, mas um dia você vai lembrar que ele passou e não volta mais. Lembra quando você tinha 20, 30 anos, e se achava infeliz? Se achava, não: era mesmo.

E quando era adolescente, não era também profundamente infeliz, como é obrigação de todos os adolescentes?

Mas será que ninguém tem um tio, desses meio doidos que todo mundo tem, que pegue um desses meninos ou meninas de 13, 15 anos, sacuda pelos ombros e diga “pare de achar que tem problemas, viva sua juventude, não perca tempo sendo complicada, neurótica, reclamando que sua mãe não te entende e que seu pai não te dá a devida atenção. Danem-se seu pai e sua mãe, aproveite a vida”.

Para ter uma maturidade com poucos arrependimentos, é preciso não perder tempo, e mesmo fazendo uma bobagem atrás da outra, é melhor do que não fazer nada. Os pais querem que os filhos estudem para ter uma profissão, e estão certos; mas quem vai dizer aos adolescentes para eles aproveitarem o tempo para serem felizes em todos os minutos da vida? Quem?

PS – Quando terminei de escrever esta crônica, lembrei de uma entrevista que fiz há mais de 20 anos com Pedro Nava, dez dias antes de sua morte. Ele disse que os jovens, até 30 anos, não deveriam fazer nada, nem estudar, nem trabalhar, apenas viver a vida. Ele talvez tivesse razão.

FOLHA DE SÃO PAULO – 19/06/11

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Desabafo 2: A leitura

“Um país se faz com homens e livros” (Monteiro Lobato), mas, ainda assim, temos estatísticas nacionais demostrando que, em média, apenas quatro em cada dez brasileiros têm algum contato com livros em nosso país. O índice de leitores regulares de nosso país é de, aproximadamente, 16% da população. Há em solo brasileiro apenas 1500 livrarias. Em cerca de 1300 cidades do Brasil não há biblioteca pública.
O livro é, para os brasileiros, um produto caro, em virtude disso, acabou se tornando um luxo pelo qual as pessoas, especialmente as mais humildes, não se dispõem a adquirir.
As políticas públicas não consideram investimentos em livros (a não ser impressos didáticos) como merecedores de cotas maiores dos orçamentos municipais, estaduais ou federal.
Só o que se vê é uma luta de alguns apaixonados por livros (professores, jornalistas, profissionais liberais) manifestando-se em favor da leitura e da melhoria das bibliotecas de seus municípios, quando elas existem. Mas essa mobilização é escassa!
Tatiana Belinky, escritora infantil nascida em 1919, declarou em reportagem ao Estadinho, suplemento infantil do jornal “O Estado de São Paulo” que “o que motiva uma criança a ler é ver os pais, tios e avós lendo”.
A continuidade desse trabalho, que deveria começar na família, depende de projetos que permitam às escolas contar com bibliotecas equipadas, atualizadas e orientadas a partir de projetos pedagógicos.
Para encerrar as informações, sou realista para compreender que o surgimento de uma população mais esclarecida e atuante em nossa nação, contrasta com os interesses da classe política dominante, que prefere manter a massa na ignorância para fazer uso político da mesma e orientar suas preferências a partir de versões modernas dos cabrestos de tempos atrás.
Mesmo assim, insisto que, como educador e cidadão (que todos somos), pautados em uma formação na qual livros foram companheiros constantes e inseparáveis, levando a uma compreensão maior dos fatos, fenômenos e relações que a todos envolvem, não há formação plena e crítica que capacite para a análise e pleno exercício da cidadania (com direitos e deveres) sem a leitura e que, não há possibilidade real disso, sem efetivar livros e bibliotecas.
Encerrando, a célebre frase de Monteiro Lobato, mais do que enriquecer um texto, nos faz pensar com carinho e engajamento a questão para que realmente se realizem e se concretizem projetos e movimentos em favor da leitura.

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