Arquivo da tag: Infância

Desarmamento Infantil

Hoje, conversei ao vivo com Marcelo Juliani, da Rádio Solar (AM-1010) , sobre o desarmamento infantil. O papo foi rápido mas interessante. Seguem algumas das minhas considerações:

armas

Foi publicada no Diário Oficial do Distrito Federal, na edição da última segunda-feira, 23 de setembro, a lei que proíbe a fabricação, venda, comercialização e distribuição de armas de brinquedo e réplicas de armas de fogo em todo o Distrito Federal (a lei não inclui as armas de pressão).

As réplicas de armas de fogo amedrontam as pessoas do mesmo modo que as armas de verdade. Segundo o coronel Luis Eduardo Goulart (chefe da comunicação social da PM do DF) arma não é brinquedo. Na hora do crime, a vítima fica sem condições de distinguir a arma de brinquedo de uma de fogo.”

Casos de assaltos com armas de brinquedo, infelizmente, são sempre registrados pelo Brasil mas tirar estas réplicas de circulação não é o suficiente para diminuir a violência. O governo precisa ter campanhas para as famílias. As escolas devem trabalhar a não violência. Tudo deve ser levado em consideração. Assim, aos poucos, começaremos a criar uma sociedade menos violenta.

É muito importante compreender que as coisas inseridas na rotina da criança vira um objeto familiar. Se elas têm acesso a armas e jogos violentos, esses elementos serão familiares para a criança. Quando ela crescer, haverá maior facilidade de incluir estes elementos em seu cotidiano.

Para finalizar, entendemos que não será toda criança com acesso aos jogos violentos e armas que farão uso dessa brutalidade no futuro. Dependemos de muitos fatores para se confirmar a prática violenta.

Fica, para cada um, a reflexão sobre como devemos nortear os conceitos e presentes que oferecemos aos pequenos e adolescentes.

criança armada

solar am

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Desarmamento, Infância

Infância: do surgimento ao desaparecimento

A invenção da infância

Os sinais da formação do sentimento de infância são encontrados na língua, nas manifestações artísticas, nos jogos e brincadeiras, no comportamento sexual, nas práticas de saúde e na ênfase à educação e à moral.

Até o século XVIII, não havia termos na língua francesa para diferenciar a infância, a adolescência e a juventude. A palavra “enfant” (criança) representava, ambos, crianças ou rapazes. Isso pode ser explicado: não era o critério biológico que distinguia as pessoas, sendo que “ninguém teria a idéia de limitar a infância pela ‘puberdade’…”. A dependência econômica marcava a idéia de infância: “Só se saía da infância ao se sair da dependência”. Daí a explicação à algumas imagens e relatos do século XVI, segundo os quais, aos 24 anos, a criança é forte e virtuosa.

O reconhecimento do critério de dependência econômica para caracterizar a infância, em detrimento ao critério biológico, gerou a seguinte situação: considerava-se adulto quem não dependesse dos pais, ainda que mais jovem à outra pessoa que, contudo, fosse dependente economicamente. Esta era considerada criança.

A ausência de termos que correspondessem a um critério biológico de divisão das idades entre crianças, adolescentes, jovens e adultos reflete a ausência de preocupação com o que hoje queremos expressar por infância. Sabe-se que a língua representa um código linguístico. A formação desse código, ou seja, das palavras, ocorre por meio de identificação entre algo que é representado e a palavra que o representa. A ausência de termos que caracterizem a infância indica a não percepção da singularidade dessa fase da vida.

Como o processo de construção da língua não é estático, o vocabulário referente à infância e à adolescência ampliou-se progressivamente, principalmente, entre as famílias nobres. É assim que, no século XVIII, surgem novas expressões para designar a infância (bambins, pitchouns, fanfans em francês), sendo que os adultos passam a se interessar em registrar as expressões e o vocabulário utilizados pelas amas quando falavam com as crianças. “Tentou-se registrar até mesmo as onomatopéias da criança que ainda não sabe falar”, registrando M. de Orignon sobre a sua netinha: “ela fala de um modo engraçado: titota, tetita y totota”.

Palavras como dodói, cacá, pipi, bumbum, tentem, formadas a partir da duplicação das sílabas tônicas são exemplos do mimo e encanto dos adultos para com as crianças refletidas na língua.

Os termos ‘criança’, ‘adolescente’ e ‘menino’ aparecem em dicionários desde a década de 1830 no Brasil. Ao contrário de que muitos pensam, o termo adolescente já existia, no entanto, seu uso não era comum no século XIX. A adolescência demarcava-se pelo período entre 14 e 25 anos, tendo como sinônimos mais utilizados mocidade e juventude. Os atributos do adolescente eram o crescimento e a conquista da maturidade. O fato de inexistir referência a esses termos nos dicionários anteriormente revela a incapacidade de diferenciar a infância da vida adulta.

Nas artes, também é possível identificar o fenômeno da descoberta da infância. O século XIII ignorava a criança enquanto manifestação artística, ao não representá-la nas telas ou retratos da época. Analisando uma tela sobre a qual desenvolve a cena do Evangelho em que Jesus pede que se deixe vir a ele as criancinhas, as crianças são representadas por homens em escala menor, em tamanho reduzido. As crianças apresentavam as características físicas (porte físico, musculatura, traços do rosto) de homens pequenos.

Para encerrar nossas questões sobre o surgimento da infância colocamos que,  progressivamente, as crianças começaram a ser incluídas nas manifestações artísticas no século XVI. Para se ter uma ideia da mudança, seria frequente a representação das crianças junto à sua família, o que até então não ocorria. Era assim que “a criança com seus companheiros de jogos, muitas vezes adultos; a criança na multidão, mas ‘ressaltada’ no colo de sua mãe ou segura pela mãe, ou brincando, ou ainda urinando; a criança no meio do povo assistindo aos milagres ou aos martírios, ouvindo médicos…; ou a criança na escola…” seria representada.

Crime alicia crianças cada vez mais novas

No Jornal Tribuna de Minas de 20 de julho de 2011, encontramos a seguinte manchete “Crianças são levadas para o crime cada vez mais cedo”. Meninos e meninas, a partir dos 8 anos de idade, têm sido usados pelo tráfico em Juiz de Fora/MG; em outros casos, garotos praticam furtos e roubos para manter vício.

O jornalista Marcos Araújo levou aos leitores importantes e tristes informações sobre os meninos que são usados no tráfico de drogas. Cada vez mais, meninos e memninas mais novos são utilizados, além das drogas, em atos contra o patrimônio. Para isso, muitos são inseridos no mundo do crime, tornando-se consumidores de entorpecentes. Outra constatação apresentada na matéria mostra que estes garotos acabam se envolvendo também em casos de agressão até mesmo no ambiente escolar. A falta de oportunidades, além de estrutura precária, tem contribuído para esta situação. De acordo com o Conselho Tutelar, existem casos de crianças que são ameaçadas de morte por aliciadores. Estes inocentes seriam induzidos ao tráfico por pessoas de fora da família, ficando sujeitos a prejuízos em seu desenvolvimento.

Recentemente, um menino de 9 anos foi flagrado fumando um cigarro semelhante ao de maconha, na Praça Senador Teotônio Vilela, no bairro Vitorino Braga, Zona Leste da cidade. O caso foi encaminhado para acompanhamento do Conselho Tutelar. Em maio, outro garoto, 12 anos, foi flagrado com maconha na mochila dentro da escola, na Zona Nordeste. A diretora escolar realizou uma busca nos pertences do aluno e encontrou, em um dos bolsos da mochila, um invólucro contendo a substância. Na ocasião, o menino falou que usaria o dinheiro da venda de drogas para comprar uma motocicleta.

Uma realidade trágica comum aos grandes centros urbanos também se faz presente em Juiz de Fora/MG: A triste vida das crianças usadas por bandidos nos crimes ligados ao tráfico e que são tratadas sob ameças. Segundo Eliseu Albuquerque, conselheiro, embora não sejam comuns, os conselheiros já receberam casos de garotos que trabalhavam para pessoas de fora da família que chegaram a ser ameaçadas, inclusive de morte. Isso acarreta um prejuízo psicológico para eles, pois se percebe que ficam com medo de ir para a escola e não aceitam os encaminhamentos dos conselheiros. A criança sofre bastante, porque é muito vulnerável a este tipo de ameaça.

Medidas de proteção

 

 O desaparecimento da infância

Nessa semana, em nosso programa de rádio, conversamos sobre a adultificação das crianças a partir da televisão. Trata-se de uma tecnologia com entrada franca (segundo Postman) para qual não há restrições físicas, econômicas, cognitivas ou imaginativas. Tanto aos 6 anos quanto aos 60, estão igualmente aptos  a vivenciar o que a televisão tem a oferecer. O efeito mais óbvio e geral desta situação é eliminar a exclusividade do conhecimento mundano e, portanto, eliminar uma das principais diferenças entre  infância e a idade adulta. Com a revelação rápida e igualitária de todo o conteúdo do mundo adulto pela mídia, várias consequências profundas se fizeram notar. 

A erotização precoce e a crescente participação infanto-juvenil nos índices de criminalidade são apenas os aspectos mais alarmantes de um conjunto de sinais de que a infância – e em especial a meninice, entre os sete e a puberdade – está em extinção.  Os prenúncios desse acontecimento invade o dia-a-dia dentro e fora da tela mágica da TV: nas roupas, nos hábitos alimentares, no padrão linguístico, no fim das velhas brincadeiras infantis, em atitudes mentais e emocionais e, claro, no campo da violência.

Referências:

Civiletti, Maria Vittoria Pardal. O cuidado às crianças pequenas no Barsil escravista.

Postman, Neil. O desaparecimento da infância. Graphia

Jornal Tribuna de Minas de 20 de julho de 2011.

 

 

Sugestão de leituras:

 ESPAÇO E EDUCAÇÃO: travessias e atravessamentos

Jader Janer Moreira Lopes & Sônia Maria Clareto – organizadores

Editora: Junqueira & Maria

 

 

 

O jeito de que nós crianças pensamos sobre certas coisas

Jader Janer Moreira Lopes e Marisol Barenco de Melo – organizadores

 Editora: Rovelle

Deixe um comentário

Arquivado em Infância