As armadilhas da autoestima

Algumas (talvez muitas) vezes, conversando com meu diretor, incluímos no meio de algumas frases a tal da autoestima. Problema sério pra mim – ou não – esse assunto tem permeado tanto minhas ideias que resolvi ler, coletar e escrever sobre ela. Segue a primeira parte de não sei quantas futuras. Espero que achem interessante. Vamos ver se, no caminhar dos textos, encontro uma conclusão.

Vocês sabiam que condicionar o sucesso de nossos projetos à confiança em si mesmo pode trazer mais problemas que benefícios? Sabiam que estudantes cuja autoestima estava fortemente ligada ao desempenho acadêmico sentiram pouco aumento de confiança nos dias em que saíam bem, mas muita insegurança quando tinham baixo desempenho? Sabiam que, na contramão da literatura de autoajuda e dos pressupostos propagados pela mídia, em especial o mercado publicitário, o caminho mais eficaz para desenvolver e preservar a autovalorização parece ser pensar menos em si e mais nos outros. Estranho? Nem tanto…

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Bem estar? Felicidade? Prazer?

 Todo mundo conhece alguém que, pelo menos aparentemente, tem “tudo para ser feliz” – realização profissional e financeira, pessoas queridas por perto, saúde, oportunidades de viver experiências interessantes e prazerosas – mas, ainda assim, todos os sucessos alcançados parecem insuficientes. É como se houvesse uma discrepância entre a satisfação cotidiana e a satisfação mais profunda consigo mesmo – o que compromete qualquer possibilidade de bem-estar mais duradouro. De fato, costuma haver consenso tanto entre leigos quanto entre especialistas de que autoestima é imprescindível para uma vida emocionalmente saudável. O que se entende por “amor-próprio”, porém, causa divergências e ainda é pouco estudado pela ciência. Aliás, a busca excessiva pelo prazer pode deixar as pessoas insatisfeitas, com forte sensação de vazio. Pesquisas recentes reforçam a constatação de que autoestima não depende do sucesso de nossas realizações – que, em geral, garante apenas a sensação frágil e ilusória de bem-estar.

Excesso

É verdade que aqueles que enxergam o próprio valor tendem a tirar proveito dessa característica de personalidade. Mas, em excesso, autoestima pode trazer sérias desvantagens. Além disso, a busca contínua por reconhecimento é claramente nociva. Buscar obstinadamente alcançar sucesso em projetos que aumentem o próprio poder, sem que haja um objetivo maior além de simplesmente “vencer”, nos torna emocionalmente vulneráveis a angústias e frustrações inevitáveis da vida e, não raro, deflagra comportamentos prejudiciais ao desenvolvimento de competências e ao cultivo de relações pessoais saudáveis. Parece que, na contramão do que costuma pregar a cultura vigente no mercado de trabalho, popularizada pela mídia e pela publicidade, o caminho mais eficaz para desenvolver e preservar a autovalorização é, ironicamente, pensar menos sobre si mesmo. Desenvolver compaixão pelos outros e por si próprio, de uma perspectiva menos egocêntrica, reforça a motivação para atingir metas pessoais principalmente em momentos de dificuldades, ajuda a aprender com os próprios erros e a fortalecer laços de amizade.

A psicologia costuma definir autoestima como o valor que uma pessoa atribui a si mesma, ou seja, trata-se de uma avaliação inerentemente subjetiva. Geralmente os pesquisadores medem essa característica por meio de escalas de autorrelato, baseando-se em declarações como “Tenho atitude positiva em relação a mim mesmo” ou “Costumo me comparar com os outros e me sentir fracassado”. Na década de 80, nos Estados Unidos, alguns políticos, psicólogos e pesquisadores em geral mostravam-se preocupados com a falta de autoconfiança entre a população. Eles acreditavam que a solução do problema seria forjar cidadãos mais produtivos a resolver problemas sociais como criminalidade e fracasso escolar. Iniciou-se um verdadeiro movimento pró-autoestima, que coincide com o início do boom de livros de autoajuda que pregam o poder incontestável da autorrealização, insistindo no uso de “fórmulas” de motivação e felicidade.

De fato, hoje tendemos a nos supervalorizar. Em um estudo publicado em 2008, os psicólogos Jean M. Twenge, da Universidade do Estado de San Diego, e W. Keith Campbell, da Universidade da Geórgia, constataram que atualmente estudantes do ensino médio têm mais orgulho de si mesmos em comparação aos jovens da década de 70. O curioso, porém, é que eles não se consideram mais competentes do que pessoas de sua idade em gerações anteriores. Ou seja: embora não acreditem ser melhores em matemática, esportes ou outras áreas que adolescentes do passado, julgam-se com maior benevolência.

Aqueles com autoestima elevada dizem se sentir mais felizes e dificilmente desenvolvem depressão. Mas ainda não está claro se o apreço por si é responsável por provocar outros sentimentos, positivos ou não. No entanto, autoconfiança em excesso tem desvantagens. Talvez a mais imediata seja a dificuldade de perceber as próprias dificuldades e falhas. Diversas pesquisas feitas nas últimas décadas mostram que pessoas com autoestima elevada tendem a ter opiniões positivas irreais sobre si: acreditam ser mais atraentes, bem-sucedidas, simpáticas, inteligentes e virtuosas que as outras e raramente se dão conta de sua incompetência ou de suas faltas. Quando recebem um retorno negativo, tendem a ficar defensivas e culpar a situação ou a pessoa que traz a informação em vez de assumir os próprios erros e fragilidades, o que prejudica o aprendizado, o crescimento e as relações pessoais.

Autodistanciamento

Uma técnica chamada pelos cientistas de autodistanciamento ajuda a reduzir a preocupação excessiva consigo e os problemas decorrentes dessa atitude. A estratégia propõe que a pessoa olhe para si como se fosse da perspectiva de um terceiro. Em um estudo de 2012, o psicólogo Ethan Kross, da Universidade de Michigan e seus colegas da mesma instituição pediram a alguns voluntários que analisassem e respondessem, individualmente, a perguntas sobre eventos emocionais que ocorreram no dia anterior, durante sete noites. Além de observar a frequência, intensidade e duração dos episódios, os participantes do experimento avaliaram em quais momentos mergulharam na situação ou se afastaram para refletir. Aqueles que adotaram um ponto de vista mais distante se recuperaram com maior rapidez de sentimentos negativos (embora experimentassem menos emoções positivas) em comparação aos mais egocêntricos. Os resultados sugerem que manter certa distância mental de situações que mexem com as emoções ameniza o impacto dos problemas cotidianos.

A autoafirmação também pode ajudar a aliviar o incômodo da autocrítica sentida após um comentário alheio desfavorável, restaurando sentimentos positivos por meio da reflexão sobre os próprios valores em outras áreas da vida. Por exemplo, se uma pessoa se sente excluída de um grupo de amigos, pode proteger a autoconfiança ao desenvolver projetos significativos em sua área profissional.

Tirando o foco de si mesmo

Hoje, se tivéssemos de desenvolver um movimento em favor da autoestima, poderíamos sugerir que as pessoas não supervalorizassem a si mesmas e sim focassem um pouco mais nos outros. O mais eficaz parece ser tirar o foco de si mesmo. Afinal, não bastam grandes realizações para lidar com o sentimento vazio. O mais útil seria sermos tolerantes com nossas próprias dificuldades e cultivar uma visão distanciada de nós mesmos, pois na base de todo sofrimento existe sempre a ameaça ao “eu” e ao “meu”. Convém lembrar ainda que medidas com o objetivo de aumentar a autoconfiança trazem, no máximo, benefícios temporários: provavelmente vão falhar mais cedo ou mais tarde (em geral mais cedo) porque são motivadas pelo autojulgamento.

Consultas:

Jennifer Crocker (Profa. de Psicologia da Universidade do Estado de Ohio)

Jessica J Carnevale (Doutoranda em Psicologia na Universidade do Estado de Ohio)

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